Indústria devolve ganho (já modesto) de 2018 e consolida tendência recessiva

Lauro Veiga Filho | O Hoje

Os números da produção industrial em 2019 divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desmentem mais uma vez a profusão de análises “polianas” disseminadas ao longo das últimas semanas (e meses, na verdade) pela imprensa que se autoproclama especializada, mídia sociais e quejandos.

Analisada em seu conjunto, a indústria enfrentou uma recessão de fato ao longo do ano passado, devolvendo todo o ganho (e um pouco mais) registrado em 2018.Na verdade, mostra a pesquisa mensal da produção industrial do instituto, o setor sequer conseguiu se reerguer acima dos níveis alcançados antes da greve dos caminhoneiros em maio de 2018 – o que parece ser a comprovação definitiva de que a indústria brasileira enfrenta sérias dificuldades para retomar o crescimento, muito além de questões conjunturais (como a paralisação virtual do setor de extração mineral diante da interrupção na produção de minério de ferro em áreas importantes da Vale depois da tragédia de Brumadinho no começo de 2019).

Com base em indicadores dessazonalizados (quer dizer, excluídos fatores que ocorrem em momentos específicos de cada período e que podem afetar as comparações, distorcendo os resultados), a produção em dezembro passado ainda se encontrava 4,2% mais baixa do que em abril de 2018. A queda mais forte (-21,3%) foi registrada pela produção de outros equipamentos de transporte. Mas produtos farmacêuticos e metalúrgicos, por exemplo, experimentavam baixas de 10,6% e de 10,1% entre dezembro de 2019 e abril de 2018, com redução de 5,2% para máquinas e equipamentos e de 4,8% para o setor de alimentos.

A “animação” de amplos setores da grande imprensa e, claro, dos tais “mercados” serviu, convenientemente, a outros propósitos, não confessados, mas presumíveis.A produção afinal recuou em dezembro passado pelo segundo mês consecutivo, seja na comparação com o mês imediatamente anterior, seja em relação a igual período do ano anterior. Pior: com retração pronunciada na produção de bens de capital (máquinas, equipamentos, tratores, caminhões e demais itens utilizados na fabricação de outros produtos), indicando novo período de queda para os investimentos em geral, o que tende a rebaixar ainda mais as perspectivas de uma retomada mais vigorosa da economia como um todo mais à frente.

Lembrete: dezembro teve 21 dias úteis, diante de 20 dias em novembro de 2019 e em dezembro de 2018.

 

Perdas em sequência

Na passagem de novembro para dezembro, o recuo veio mais intenso do que as previsões dos departamentos econômicos de bancos, financeiras, corretoras e administradoras de riquezas (que o economês denomina como “ativos”). Afinal, esse é o “mercado” que conta para a equipe econômica e para a grande imprensa. A produção sofreu baixa de 0,7% naquela comparação, depois de cair 1,7% em novembro (na comparação com outubro). Em dois meses, a perda chegou a 2,4%. Se comparada a dezembro de 2018, a produção baixou 1,2% e já havia sofrido queda de 1,8% em novembro. O setor encerrou 2019 com redução de 1,1% depois de registrar avanço apenas modesto no ano anterior (1,0%). Quase dois terços dos 26 setores de atividade investigados pelo IBGE sofreram perdas no último mês de 2019 e no acumulado de todo o ano passado. Definitivamente, não houve motivos para celebrações e rojões.

Balanço

Os números negativos nos últimos dois meses de 2019, apontam os economistas Luka Barbosa e Matheus Felipe Fuck, do Itaú Unibanco, deverão “contaminar” os primeiros resultados da indústria neste ano, determinando um ritmo ainda muito lento para a atividade industrial no trimestre inicial de 2020, ajudando a frear toda a economia.

A produção foi penalizada ainda pela queda nas exportações de bens manufaturados, que sofreram baixa de 1,6% no terceiro trimestre de 2019 e despencaram 13,8% no quarto trimestre, sempre em comparação com os volumes embarcados pelo setor nos mesmos períodos de 2018. Em contrapartida, ajudando a afundar um pouco mais o nível da atividade industrial, a entrada de bens manufaturados produzidos lá fora avançou 9,7% e 7,9% na mesma sequência.

Considerando o seu melhor momento, registrado no já longínquo maio de 2011, a produção industrial acumula perdas de 18,0%. O tombo mais severo, nesse tipo de comparação, continua reservado para a indústria de bens de capital (aquela que produz itens que serão utilizados para fabricar outros produtos, como caldeiras, alto-fornos, tornos, fresadoras, colheitadeiras, tratores, outras máquinas e equipamentos e até mesmo caminhões).

Comparada ao pico, alcançado em setembro de 2013, a produção de bens de capital acumula perdas de 41,9%, uma enormidade. Em outubro, novembro e dezembro, na comparação com o mês imediatamente anterior, a produção do setor caiu 1,4%, 1,3% e 8,8%. Na mesma sequência, mas em relação aos mesmos três meses de 2018, os tombos foram de 2,1%, 3,2% e 5,9%. Depois de um período positivo, notadamente no segundo quadrimestre de 2019 (quando avançou 4,0%), a indústria de bens de capital capotou, encerrando 2019 com recuo de 0,4% (depois de avançar 6,2% e 7,1% em 2017 e 2018).

No terceiro quadrimestre de 2019, comparado ao mesmo intervalo de 2013, a produção do setor sofreu baixa de 2,3%, com retração de 19,9% nos bens de capital para a agricultura e de 3,4% no segmento de transporte. Numa exceção, a produção de bens de capital destinados à indústria aumentou 5,9% nos últimos quatro meses de 2019.

No acompanhamento do Itaú Unibanco, o nível do investimento deve ter experimentado contração de 2,0% no quarto trimestre do ano passado, limitando o avanço esperado para o Produto Interno Bruto (PIB) a 0,6% nos três meses finais de 2019.

Publicado no jornal O Hoje do dia 12/02/2020

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