Cadeia láctea teme fim da desoneração

Propostas que tramitam no Congresso podem onerar cesta básica em 25%, elevando
preços de produtos para o consumidor.

Ordenha mecânica: pequenos produtores rurais representam 80% da cadeia produtiva de leite nacional (Foto:
Diomício Gomes / O Popular)

As propostas de reforma tributária que tramitam no Congresso Nacional preveem o fim
da desoneração da cesta básica e preocupam a cadeia láctea, pois devem
sobrecarregar o setor produtivo e provocar mais reajustes de preços. A previsão é de
um aumento da carga tributária de 5% para 25%, o que prejudicaria principalmente os
pequenos produtores, que representam 80% do total, e elevaria os preços de todos os
produtos lácteos. Porém, o impacto deve ser sentido em toda indústria alimentícia.
Atualmente, três propostas de reforma estão em discussão: a PEC 45/2019, a PEC
110/2019 e o PL 3887/2020, que trazem alterações importantes. Hoje, a grande maioria
dos pecuaristas de leite são pessoas físicas e não contribuem com nenhum imposto
sobre bens e serviços. Mas, pelas duas primeiras propostas, eles passarão a contribuir,
independentemente de seu tamanho, e terão que fazer um livro caixa digital. O imposto
a ser recolhido será calculado na diferença entre o valor de venda do produto e o
crédito com aquisição de insumos.
O Censo Agropecuário do IBGE mostrou que 98% dos produtores produzem menos de
500 litros diários de leite e faturam menos de R$ 200 mil brutos por ano. “São micro
empresas que teriam que mudar toda sua estrutura de gestão, inclusive até contratando um contador”, alerta o diretor executivo da Associação Brasileira de
Laticínios (Viva Lácteos), Marcelo Costa.
Um estudo encomendado pela Viva Lácteos ao Centro de Estudos Avançados em
Economia Aplicada da Universidade de São Paulo, prevê que os produtores e laticínios
passariam a recolher quase R$ 8 bilhões por ano. Isso caso os produtores
conseguissem creditar todos os insumos, o que não é fácil. “Como os pequenos
utilizam menos insumos que os grandes, acabariam pagando mais imposto sobre cada
litro de leite”, destaca Marcelo.
As duas primeiras propostas preveem uma alíquota de 25%. O Instituto Pensar Agro,
que congrega 44 entidades do agronegócio, apresentou uma proposta conjunta à
Frente Parlamentar Agropecuária, pedindo a manutenção da desoneração da cesta
básica e do produtor como não contribuinte do imposto sobre bens e serviços, a
adoção de um crédito presumido de 75% que não gere cumulatividade, garantia da
utilização de todos os créditos na aquisição de insumos e serviços e a rápida
restituição dos créditos.
Famílias de baixa renda
O diretor da Viva Lácteos ressalta a importância da desoneração por causa do forte
impacto que a cesta básica tem no orçamento das famílias de baixa renda no País, que
têm mais de 20% de sua renda comprometida com alimentação. A previsão é que o
imposto único de 25% elevaria os preços do leite UHT em 16,9%, os do leite em pó em
17,5%, os do queijo muçarela em 22,5% e os dos iogurtes em 25%. Esses produtos
representam 75% dos alimentos processados pela indústria de laticínios do Brasil. O
resultado será uma queda no consumo. “A cada 10% de redução do poder de compra
da população, o consumo de queijo UHT cai 5% e o muçarela tem redução de 11%”,
adverte.
Outro pedido do setor é que não haja incidência de imposto seletivo sobre os
alimentos. Marcelo Costa explica que isso representaria um imposto mais alto para
alguns produtos. “Somos contra porque há a necessidade de uma dieta equilibrada
para a saúde das pessoas. Aumentar mais o imposto sobre determinados produtos
resultaria numa maior restrição alimentar”, alerta. Os representantes do setor informam
que estão conversando com a equipe técnica que elaborou a minuta da relatoria na
Comissão Mista para sensibilizá-los a respeito destes pontos polêmicos. “Abrimos um
diálogo técnico e transparente e temos expectativa de conseguir sensibilizá-los”,
acredita.

Para o presidente da Comissão de Bovinocultura da Federação de Agricultura de Goiás
(Faeg), Vinícius Ferreira, as propostas são muito ruins porque o setor já trabalha no
limite de custos. “Não somos contra a reforma tributária, mas ela deve simplificar e não
onerar a produção. O impacto social e econômico será grande porque mais de 80%
dos produtores são pequenos, que terão de pagar um contador para fazer livro caixa,
além de resultar em aumento de preços dos produtos”, destaca. Com isso, o
rendimento dos pequenos bovinocultores e o orçamento das famílias será diretamente
impactado.

Fonte: Jorna o Popular

Reforma está no caminho errado, diz grupo de especialistas

Foco em discutir um imposto sobre valor agregado e o timing errado estariam entre os
equívocos.

Para Rezende, IVA é imposto da era industrial e é preciso discutir modelo adaptado aos impactos de novas tecnologias — Foto: Claudio Belli/Valor

Em meio aos inúmeros pleitos do debate sobre os impactos da reforma tributária nos diversos
setores e entes federados, há especialistas que são contra todas as propostas colocadas na
mesa até agora. Em reunião virtual, o Valor ouviu sete integrantes de um grupo de professores
e pesquisadores que vem discutindo o assunto.
Com base em argumentos diversos, o grupo, coordenado pelo professor Fernando Rezende,
da Fundação Getulio Vargas (FGV), vê equívocos nos rumos apontados pelos principais
projetos em negociação.

Everardo Maciel, ex-secretário da Receita Federal: a verdadeira questão que está em jogo com a PEC 45 é uma grande redistribuição da carga tributária — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Foram alvos de discussão a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 45, que tramita na
Câmara dos Deputados, a PEC 110, que está no Senado, e também o projeto de lei enviado
pelo governo federal com a proposta de criação de uma Contribuição Social sobre Bens e
Serviços (CBS), unificando PIS e Cofins. A PEC 45 propõe a criação de um novo tributo sobre
consumo no modelo de um Imposto sobre Valor Agregado (IVA), com alíquota única, não
cumulativo, cobrado no destino e dando fim aos incentivos fiscais existentes hoje. O novo
tributo unificaria não somente PIS, Cofins e IPI como também o ICMS estadual e o ISS
municipal.
Para Rezende, o IVA é um imposto da era industrial e é preciso discutir um modelo de tributo
que esteja mais adaptado à era digital e aos impactos que as novas tecnologias terão no futuro.
As propostas atuais foram apresentadas sem estudos prévios e sem transparência sobre os
efeitos econômicos, diz ele.
O IVA, afirma Rezende, foi criado quando o processo de produção se assemelhava a uma
linha ferroviária, na qual em cada “estação” era agregado um valor cada vez maior à medida
que se avançava no percurso. Hoje, diz ele, a produção é mais uma “roda viva”, na qual o
maior insumo é intelectual e o valor agregado pode vir de várias partes do mundo. Nesse
processo, diz, não há como se estabelecer origem e destino e nem há sentido em se falar em
não cumulatividade, algo buscado tanto pela CBS quanto pelas PECs que tramitam no
Congresso.
Os debates coordenados por Rezende deram origem ao documento “Caminhos para a reforma
tributária”, subscrito também pela advogada Tathiane Piscitelli, professora da Escola de Direito
da FGV, Vilma Pinto, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), José
Roberto Afonso, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), Márcio Holland, exsecretário de Política Econômica e professor da FGV, e Vagner Ardeo, vice-diretor do Ibre/FGV.
Também participaram do documento os ex-secretários da Receita Federal Everardo Maciel e
Marcos Cintra.
“A PEC 45 deve ser não somente discutida, mas combatida”, diz Tathiane Piscitelli. Da
perspectiva jurídica, há muitos problemas afirma ela. Para além da questão federativa, ao
retirar autonomia política e financeira dos entes, avalia, a unificação de tributos com eliminação
absoluta de benefícios fiscais, é um modelo que não se adequa ao Brasil, muito complexo
social e economicamente. “Há demandas específicas atendidas por meio de incentivo fiscal.
Temos necessidade de benefícios para o Brasil conseguir atingir metas no acordo de Paris, por
exemplo. Não se trata de benefício desmedido.”

Tathiane destaca a alta alíquota que o novo IVA poderá ter. “Se a CBS tiver sucesso, teremos
um dos mais elevados IVAs do mundo, entre de 30% a 32%, o que irá reverberar nos itens da
cesta básica e aumentará a regressividade.” A devolução do imposto à população de baixa
renda como forma de reduzir esse efeito é uma “falácia”, diz, pelo seu conceito e também pelas
dificuldades operacionais. Um dos problemas é saber quem receberá essa devolução. “A
renda per capita média da região Sudeste é o dobro da do Nordeste. Como vou estabelecer
quem tem direito a essa restituição de forma simplista, sem considerar a complexidade do
país?”
A regressividade também preocupa Márcio Holland. Para ele, fazer uma reforma que
contempla apenas a tributação sobre consumo traz um perigo muito grande. “
Independentemente de concordar ou não com o IVA, uma mudança exclusivamente sobre
consumo coloca o risco de pararmos por aí e não fazermos uma reforma efetivamente ampla.”
Farta literatura nacional e internacional, diz, aponta o IVA como altamente regressivo. “Estudos
dizem da possibilidade, sob algumas hipóteses, da PEC 45 reduzir a regressividade em
relação ao sistema atual sobre consumo. E a possibilidade de a PEC 45 aumentar ainda mais
a regressividade não é desprezível.”
O Imposto de Renda negativo, defende Holland, é uma alternativa mais consistente para
mitigar os efeitos regressivos de um novo IVA. Sua operacionalização, diz ele, pode se dar de
várias formas, como a concessão de benefícios mensais, de forma similar ao auxílio
emergencial, e por ajuste no IR anual para quem declarar até uma certa faixa de renda per
capita familiar. Dados cruzados da Receita Federal com os programas sociais, defende,
permitiriam criar condicionalidades, como acesso escolar obrigatório a crianças e adolescentes
da família, por exemplo.
Everardo Maciel não poupa críticas às propostas de reforma em discussão. Para ele, o projeto
da CBS e a PEC 45 têm “defeitos graves”, além de terem inconstitucionalidades apontadas por
diversos juristas. “O problema é apresentando com base em chavões, com falsas ilações, e a
partir daí se apresentam soluções mágicas.” Para ele, a reforma tem conclusões e encerra
uma “grande agenda oculta”.

“Diz-se que o sistema atual é regressivo. Mas não existe nada mais regressivo que uma
alíquota única. O enfrentamento da regressividade está na pluralidade de alíquotas.” É claro
que não se pode ter alíquotas demais, pondera ele, porque isso traz maior complexidade do
sistema. “Mas é preciso ter algumas alíquotas diferenciadas.” Também é um equívoco, diz ele,
partir do pressuposto de que simplificar o sistema consiste em juntar tributos. “Vamos juntar PIS
e Cofins. Por quê? Os dois são iguais, têm a mesma legislação, exceto em casos
especialíssimos, têm o mesmo documento de arrecadação.”
A verdadeira questão que está em jogo, defende Everardo, é uma grande redistribuição de
carga tributária. “Isso não é dito, está sendo descoberto aos pedaços. Na proposta da PEC 45
quem ganha é a instituição financeira, que hoje paga PIS e Cofins e deixa de pagar. Estamos
falando de R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões ao ano. Quem vai pagar a conta são pequenos e
médios prestadores de serviços, como escolas, clínicas médicas, o agronegócio”, aponta. “Mas
vai reduzir tributação na geladeira. Então vamos comprar duas geladeiras e deixar de pagar a
mensalidade escolar?”
Para José Roberto Afonso, o problema não é o IVA. “Sempre defendi o imposto e continuo
defendendo. Mas não adianta fazer a coisa certa na hora errada.” Ninguém no mundo, diz, está
discutindo reforma tributária. “O que se debate é como prorrogar tributos ou incentivar
investimentos. Ninguém está pensando em mudança, sobretudo que possa aumentar a
arrecadação justamente quando há recessão.”
Vagner Ardeo, vice-diretor do Ibre, diz que a prioridade deve se outra. “É como imaginar um
prédio pegando fogo do ponto de vista fiscal enquanto o proprietário discute com o arquiteto a
reforma que estava prevista para acontecer.” Para ele, é preciso cuidar agora do “incêndio”, sair
dele minimamente viável para depois isso refletir numa proposta de ajuste adequada.

 

Fonte: “Jornal Valor Econômico”

 

“Vamos entrar em rota de implosão fiscal’” diz Guedes, sobre novo fundo a Estados

Ministro da Economia fez um forte discurso contra a criação de fundos para compensar os entes pela reforma tributária.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que a criação de novos fundos para destinar recursos federais para os Estados e municípios levará a União a uma rota de “implosão fiscal” e seria um “assalto a gerações futuras”.

Em evento virtual da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Guedes fez um forte discurso contra a criação de fundos para compensar os entes pela reforma tributária.

Os secretários de fazenda defendem a criação de um fundo de desenvolvimento regional e de um fundo de exportações com recursos da arrecadação federal a ser dividido com Estados e municípios.

“Se anunciarmos que estamos criando mais fundos, a União pode quebrar e vai faltar dinheiro pra todo mundo. Vamos entrar em uma rota de implosão fiscal. Não podemos comprometer recursos que não temos, não podemos bancar”, afirmou. “Tudo que conseguimos daqui pra frente vamos dividir, mas não podemos garantir o que não temos”.

Guedes disse acreditar que a arrecadação de impostos vai subir nos próximos meses para União, Estados e municípios, mas que é preciso que todos “sigam juntos”, sem esperar compensações do governo federal.

Ele afirmou que o governo dividiu o que tinha com os Estados e municípios durante a pandemia. “Não temos condições de duplicar agora. Não podemos ficar esperando que um ente dê garantia para o outro”, completou.

Guedes repetiu que quem decide o timing das reformas é o Congresso Nacional e disse ser favorável à criação de um imposto único da União com os Estados e municípios, mas que não cabe ao Executivo propor o tributo.

 

Fonte: Agência Estado

Homenagem ADIAL, ao Dia da Independência do Brasil.

As indústrias de Goiás figuram na seleta lista daquelas que progrediram em 2020. Com responsabilidade e gestão, fortalecemos e reafirmamos o nosso compromisso com um Brasil livre e produtivo.
7 de setembro. Dia da Independência do Brasil.
#7desetembro
#independenciadobrasil

Varejo faz gestão da entrega de produtos e muda setor de logística

Mercado Livre, B2W, Magazine Luiza e Via Varejo ampliam serviços na área

 

 

 

 

 

 

 

Novo centro de distribuição do Mercado Livre, inaugurado este mês na Bahia:
no 2º trimestre, 51% dos envios foram feitos por
estrutura própria da companhia — Foto: Divulgação

Em crescimento acelerado, o varejo on-line vem provocando um rearranjo do setor de logística.

Empresas como Mercado Livre, Magazine Luiza, B2W e Via Varejo, abraçam cada vez mais a

gestão da entrega de produtos, conforme avançam as vendas feitas por terceiros em seus

shopping centers na internet, os chamados “marketplaces”. A ideia é garantir que o cliente fique

satisfeito, e volte a comprar, e consolidar uma fonte extra de receita.

 

No segundo trimestre, 96% das vendas totais do Mercado Livre no Brasil passaram pelo

Mercado Envios, seu braço de logística. Dessa fatia, 51% foi feita pela Melinet, como é

chamada a estrutura de serviços logísticos com operação própria, que oferece coleta e entrega

de mercadorias, armazenagem e entrega, e entrega expressa. E esse índice deverá ser maior

no terceiro trimestre, de acordo com Leandro Bassoi, vice-presidente do Mercado Envios para

a América Latina. “Nós acreditamos que dominar a logística é um dos grandes fatores que

farão os clientes terem cada vez mais uma experiência melhor e, por consequência, mudarem

seus hábitos de compra do mundo off-line para o on-line.”

Domínio da experiência de compra de um item, desde o site até a

casa do cliente, é estratégico para os grandes grupos

Dos R$ 4 bilhões de investimentos previstos para o ano, parte expressiva vai para a divisão

logística. Na semana passada, o Mercado Livre começou a operar seu terceiro centro de

distribuição (CD), em Lauro de Freitas, na Bahia. Outro, na região Sul, deve ser inaugurado

ainda este ano.

 

Operação própria, porém, não significa compra de ativos como caminhões e, para algumas

empresas, nem mesmo de CDs. “Podemos dizer que a cadeia logística passa por uma

verticalização, mas isso não significa ser dono de ativos e, sim, criar tecnologia para ser mais

eficiente e permitir que tudo passe por dentro do nosso sistema”, diz Bassoi, destacando que a

empresa mantém parcerias de médio e longo prazo com transportadoras.

 

 

A visão é compartilhada por Sérgio Leme, vice-presidente de operações da Via Varejo.

Segundo ele, não há necessidade de investir em ativo físico próprio, mas, sim, no que ele

chama de “ativo intelectual”. Nem mesmo os CDs das operações das Casas Bahia e Ponto

Frio são da varejista e, sim, alugados com contratos de longa duração. É nessa lógica que a

companhia anunciou em abril a compra da ASAP Log, empresa de tecnologia que conecta

lojas e entregadores. “Vemos a logística também como uma braço de negócio”, diz Leme,

apontando que além de aumentar a escala de entregas da Via Varejo, a ASAP Log trouxe

clientes de fora do ecossistema da empresa.

 

A tendência agora é que as grandes varejistas, em especial as que nasceram no comércio

tradicional, ampliem a oferta de logística para os vendedores de seus marketplace. Ainda este

ano a Via Varejo vai passar a oferecer aos terceiros que vendem por meio de sua plataforma a

opção de utilizar sua malha de transportadoras parceiras para coletar o produto e fazer a

entrega na casa do cliente, sem que ele necessite buscar um fornecedor externo. Esse serviço

já é uma opção oferecida pelo Magazine Luiza a cerca de mil vendedores (que representam

aproximadamente 20% das vendas totais do marketplace), além da possibilidade de retirada

em lojas da varejista, o que a Via Varejo espera oferecer a partir de 2021.

 

“Com o ‘Magalu a seu serviço’ oferecemos aos nossos parceiros a logística e as regras que

usamos em nossos serviços e as entregas ficam mais baratas e mais rápidas”, afirma Leandro

Soares, diretor-executivo de marketplace da varejista. Ele afirma que a aquisição da startup de

logística Logbee em 2018 ampliou a escala, especialmente nas entregas na última milha, mas

diz que questões geográficas e de volume de vendas ainda limitam a capacidade de ampliação

da oferta de gestão das encomendas a mais vendedores. Na Via Varejo, Leme diz que um dos

desafios são as diferentes regras tributárias em cada Estado.

 

Como já fazem Mercado Livre e B2W, o Magazine Luiza e a Via Varejo também estudam a

disponibilidade do modelo “fulfillment”, um pacote completo de serviços, em que os estoques

de terceiros são armazenados pela varejista. À frente da logística da Via Varejo, Leme diz que

o uso de alguns CDs por terceiros já está em fase de testes.

Na B2W, esses serviços estão sob o guarda-chuva da LETs, plataforma de gestão

compartilhada dos ativos de logística e distribuição com a Lojas Americanas, sua controladora.

São 17 centros de armazenagem e distribuição em oito Estados (MG, PA, PE, PR, RJ, RS, SC

e SP) e até o fim de 2020, três novos serão abertos em outros Estados. Além disso, a empresa

criou a Ame Flash, pela qual conecta vendedores com 20 mil entregadores independentes em

mais de 700 cidades.

O avanço intenso das vendas on-line estimula as mudanças. De janeiro a julho, a

movimentação logística do segmento cresceu 93% ante 2019, segundo a provedora de

softwares de gestão Senior Sistemas, que atende médias e grandes varejistas. Mauricio Lima,

sócio da consultoria ILOS, diz que o marketplace exigiu uma logística mais elaborada, levando

a esse controle maior da gestão do processo, mas com intensificação da relação de

dependência entre varejistas e agentes do setor, dos maiores até os menores.

 

 

O crescimento se estende até para outros segmentos. A locadora de caminhões e utilitários

Vamos, diz que a receita com empresas ligadas ao comércio on-line passou de 5% do total

para 7% de 2019 para este ano. Esses contratos são, de acordo com o diretor comercial José

Geraldo Jr., com transportadoras exclusivas ou mesmo com varejistas, em especial do setor de

alimentação, cuja logística tem características próprias, como refrigeração ou prazos mais

curtos.

À frente da transportadora Jadlog, cuja maior parte do faturamento já vem das encomendas

on-line, Bruno Tortorello diz que há uma potencial perda de receita para o setor conforme parte

das atividades de logística são absorvidas pelas varejistas, mas avalia que a interdependência

vai aumentar, com o comércio não abrindo mão do trabalho especializado das transportadoras.

“Vai sobreviver quem agregar valor.” A empresa atende desde pequenos varejistas até

Mercado Livre e Via Varejo, e diz que o volume diário de entregas do on-line dobrou ante o

nível anterior à pandemia.

Já a Mandaê, que conecta vendedores a transportadoras, diz que esse grau de consolidação é

um risco, mas que o comércio on-line independente cresce e dependente de solução logística.

“Se o marketplace for o único canal, não é positivo para o ambiente on-line”, diz o fundador e

presidente Marcelo Fujimoto. Em agosto, as entregas dentro do sistema da empresa

cresceram 200% na comparação com o período anterior à pandemia.

 

Fonte: Jornal Valor Econômico

Montadoras prorrogam medidas para evitar demissão

Ociosidade nas fábricas vai continuar em 2021, o que indica que dificilmente não haverá

cortes

Grande parte dos funcionários da indústria automobilística tem mantido seus empregos às

custas de prorrogações de suspensão temporária do trabalho, redução de jornada e outras

ferramentas usadas para adiar demissões. Mas as projeções do setor, que mostram um 2020

ruim e um 2021 pouco melhor reduzem as chances de que as empresas estejam dispostas a

manter seus atuais quadros de mão de obra.

 

 

Na semana passada, a Mercedes-Benz prorrogou a suspensão temporária de contrato dos

operários. Dias antes, General Motors e Renault abriram programas de demissões voluntárias.

Já a direção da Volkswagen passou os últimos dias em negociação com os sindicatos das

quatro fábricas em busca de soluções para o excedente de mão de obra que, segundo os

sindicalistas, chega a 35% do efetivo.

A ociosidade das fábricas saltou de 42% em 2019 para 68% este ano e, segundo cálculos de

fontes, não ficará abaixo de 64% em 2021. O excedente de pessoal aparece no resultado da

conta de veículos produzidos por trabalhador. Em 2019, as montadoras tinham 106,7 mil

funcionários e produziram 2,95 milhões de veículos. A relação veículos por trabalhador ficou

em 27,6, a mesma de 2013.

 

A previsão de chegar a 3 milhões de veículos em 2020, anterior à pandemia, manteria a

mesma relação. Mas, agora, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores,

estima 1,6 milhão de unidades. A relação veículos por trabalhador, levando em conta o quadro

atual, cairia para 15,67.

 

Fonte: Jornal Valor Econômico

Pandemia distorce custos da indústria e cria ambiente para alta da inflação

Empresas dos mais diversos setores se queixam de escassez ou reajustes excessivos de insumos

Não bastasse a pandemia do coronavírus ter derrubado a demanda e, por

consequência, a produção das empresas, agora a indústria sofre com uma alta de até

35% dos insumos utilizados no processo produtivo, além da escassez de alguns

suprimentos.

Por enquanto, as empresas estão absorvendo a maior parte desse impacto, reduzindo

margens que já vinham pressionadas por causa da crise da Covid-19. Há, porém, o

temor de que, em algum momento, com o crescimento da demanda, esse aumento de

custos seja repassado ao consumidor, pressionando a inflação.

Alta do dólar, queda da produção de insumos devido à pandemia, retomada da

produção industrial mais rápida do que o esperado e aumento das exportações em

decorrência do câmbio favorável e do reaquecimento da demanda em países onde a

doença já arrefeceu estão entre os fatores que explicam esse desequilíbrio entre oferta

e demanda na produção, segundo as indústrias afetadas.

“Temos um grupo de empresas e compramos aço juntos. Identificamos que há uma

falta de produto no mercado”, diz Homero Dornelles, consultor especialista no mercado

de aço, que trabalha com 18 fabricantes de máquinas e equipamentos de grande e

médio porte, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

“Das cotações que fizemos em agosto, recebemos resposta para somente 31% dos

pedidos. Mais empresas não responderam porque não tinham disponibilidade do

material.”

Segundo Dornelles, como resultado dessa falta de produto, os preços do aço nos

distribuidores acumulam alta de até 35% de julho a setembro —e há um novo reajuste

esperado para outubro. Para o consultor, a crise da Covid-19 desequilibrou o mercado.

“Com a queda da demanda no início da pandemia, as usinas abafaram seis alto-fornos

entre abril e maio, reduzindo a produção nacional em cerca de 40%”, afirma.

Nesse meio-tempo, as usinas venderam seus estoques, consumidos por setores como

construção civil e máquinas agrícolas, que retomaram atividades mais cedo.

Além disso, diz Dornelles, a diminuição de embarques na China em fevereiro e março

provocou desabastecimento em muitos mercados, e o Brasil aumentou exportações

para atendê-los.

O dólar alto também inviabilizou importações, contribuindo para a menor oferta de aço

no mercado interno, nesse momento em que o restante da indústria retoma produção.

“Isso vai ter efeito no cumprimento dos prazos de entrega das empresas, com potencial

cobrança de multas e geração de inadimplência”, diz o consultor. “Trabalhar nesse

campo de incerteza, quando os aços representam para máquinas e equipamentos de

35% a 60% da matéria-prima, somado à insegurança de preço, está levando a um

desarranjo no mercado.”

 

Para José Velloso, presidente da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de

Máquinas e Equipamentos), as indústrias vivem uma situação quase “kafkiana”. “O

setor de máquinas está longe de estar utilizando toda a sua capacidade produtiva, o

setor de aço também, mas os preços subiram, mesmo num país sem inflação.”

O Instituto Aço Brasil, representante das usinas, diz que o setor tem plena capacidade

de atender a demanda e que prioriza o atendimento ao mercado interno.

“A retomada da atividade econômica vem sendo mais rápida do que o esperado, o que

é bom para o país. No ápice da pandemia, o setor chegou a operar com ociosidade de

mais de 50% de sua capacidade instalada. Tão logo os setores consumidores voltaram

a apresentar seus pedidos, as usinas, prontamente, religaram seus alto-fornos e estão

operando normalmente”, argumenta o instituto.

Outro setor que enfrenta falta de insumos e aumento de preços são os transformadores

de plásticos.

“Há um problema de oferta de PVC, polipropileno e polietileno”, relata José Ricardo

Roriz Coelho, presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico).

Segundo o representante da indústria, no segmento de PVC, os reajustes chegam a

superar 30% nos últimos meses.

A DVG Plásticos, fabricante de tubos, conexões, telhas e placas de PVC, por exemplo,

informou em meados de agosto um reajuste de 10% em todos os seus produtos e

limitação de compra por clientes. Segundo informou a empresa, em comunicado a

clientes, a resina plástica teve aumento acima de 50% até agosto, e novo reajuste já é

esperado para o mês de setembro.

Já a Corr Plastik, também de tubos e conexões, anunciou reajuste de 20% nos seus

preços e alertou para o risco de parada de produção. “Estamos enfrentando sérias

dificuldades para conseguir nos manter em mínimas condições operacionais em

nossas unidades, e os riscos de paradas por falta de insumo estão cada vez mais

iminentes”, informou a empresa a clientes.

Segundo a Braskem, maior fornecedora de resinas plásticas do país, o problema em

PVC se deve a uma suboferta no mercado internacional e também ao apetite chinês

com a retomada, num mercado que é atendido em um terço por importação.

Já em polipropileno, a empresa diz que houve um retorno muito rápido da atividade

industrial, com pedidos nos últimos meses maiores do que a média do ano passado,

mas que está dando conta de atendê-los, embora a preços mais altos devido à cotação

internacional.

As dificuldades de suprimento afetam também indústrias que atendem o consumidor

final.

No setor de bicicletas, a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de

Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares) alertou em meados de

agosto para um gargalo da produção, em meio a aumento da demanda global, devido à

falta de peças.

“Há um grande descompasso entre a oferta de peças dos maiores fornecedores, que

estão localizados principalmente na Ásia, e o aumento da procura por bicicletas no

mundo inteiro”, diz Cyro Gazola, vice-presidente do Segmento de Bicicletas da

Abraciclo.

“Muitos fornecedores de componentes estão trabalhando com algo entre 120% e 130%

da sua capacidade, mas, mesmo assim, não conseguem dar conta da demanda da

indústria.”

Em eletroeletrônicos, a falta de componentes vindos da China enfrentada em fevereiro

não se repetiu nos meses seguintes. Mas o setor ainda convive com uma alta de 30% a

40% no preço dos insumos importados.

“Tivemos dois problemas simultâneos, a desvalorização do real do ano passado para

este, num setor com 70% de insumos importados, e a redução dos voos, que levou a

uma alta de preços do frete de cerca de 200%”, diz Humberto Barbato, presidente da

Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica).

No setor têxtil, com safra recorde de algodão, também não há falta de insumo. Mas os

custos estão em alta, devido ao câmbio favorável à exportação da matéria-prima e às

cotações internacionais pressionadas pela volta da atividade em regiões onde a

pandemia já arrefeceu, afirma Fernando Pimentel, da Abit (Associação Brasileira da

Indústria Têxtil e de Confecção).

“Nos últimos 20 dias, o algodão subiu 20% a 25%”, diz Pimentel. “No mercado interno,

não há espaço para fazer repasse de preços, dado o mercado consumidor reagindo,

mas ainda empobrecido.”

Esse descolamento entre a alta de custos enfrentada pelos fabricantes e os preços aos

consumidores fica evidente quando se observam dois dos principais índices de inflação

do país.

O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), taxa oficial de inflação medida pelo

IBGE e que mensura a variação de preços para famílias com renda de 1 a 40 salários

mínimos, acumula alta de 2,31% em 12 meses até julho.

Enquanto isso, o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado), medido pela FGV e

composto em 60% pelos preços do atacado, bateu 13,02% em 12 meses até agosto,

sob impacto da alta global das commodities com a recuperação econômica e a

desvalorização cambial.

 

Para André Braz, coordenador de índices de preço do Ibre-FGV, o repasse de preços

do atacado para os consumidores pode ganhar força em 2021, com a recuperação da

atividade econômica.

“À medida que o desemprego começar a diminuir, isso pode facilitar o repasse de

preços”, diz Braz. “É inquestionável que há um represamento de custos”, afirma.

Ele pondera, porém, que a situação fiscal do governo deve impedir uma alta maior da

inflação no próximo ano, já que ela contribui para que demanda permaneça reprimida.

 

Fonte: O Popular