Indústria prevê escassez de soja em Goiás até o fim do ano

Com o ritmo atual das exportações, setor fala em déficit de até 2 milhões de toneladas para produção de óleo comestível, biodiesel e ração.

Se o ritmo de exportações de soja continuar elevado, pode faltar grão para a indústria goiana processar este ano. Com as cotações da oleaginosa e do dólar em alta, as vendas externas estão a todo vapor e as empresas temem escassez da matéria-prima no último trimestre, já que a estimativa é de que os estoques durem até setembro. Isso afetaria a produção de produtos como óleo de soja, biodiesel e ração animal.

Por conta do incentivo da Lei Kandir, que desonera as exportações do grão, as vendas externas cresceram 2.201% entre 1996 e 2018. Agora, com o dólar na casa dos R$ 5, esse incremento acelerou. Em março, as exportações goianas de soja somaram US$ 424,6 milhões, 55% mais que no mesmo período de 2019. No Brasil, os embarques foram recordes e atingiram 11,6 milhões de toneladas, um crescimento de 38% na mesma comparação. Para abril, de acordo com a Rural Business, agência de informações estratégicas, já é previsto um incremento de 85% na média semanal de embarques sobre o mesmo mês de 2019.

As prováveis consequências futuras desse aumento tem preocupado a indústria. “Não existe política de incentivo à industrialização e, com o câmbio neste patamar, entramos num cenário grave”, avalia o presidente do Grupo Caramuru, Alberto Borges. Segundo ele, o mercado pode pagar o preço por essa exportação “exagerada” porque a escassez da matéria-prima pode levar a indústria a operar parcialmente no segundo semestre, afetando a oferta de óleo de soja comestível e a produção de biodiesel, além de prejudicar as cadeias produtivas da avicultura e suinocultura, que dependem de ração.

Alberto Borges prevê que isso se agrave na segundo safra de milho, que também está muito demandado no mercado internacional e segue o mesmo caminho da soja. Ele lembra que os dois grãos são a base para produção de ração para aves e suínos. A China é o maior comprador da soja goiana. “Enquanto outros países investiram na industrialização e geraram cada vez mais empregos, inclusive a China, o Brasil fez o caminho contrário e incentivou a exportação primária”, ressalta.

O representante de outra grande indústria de Rio Verde, que esmaga farelo, óleo e ração, mas não quis se identificar, também teme a falta da matéria-prima. Segundo ele, a indústria não tem a mesma vazão que nas exportações, já que precisa comprar e armazenar para processar depois de algum tempo. Já prevendo essa situação, o empresário reforçou seu estoque, que é suficiente até o início de setembro. “Mas 80% da soja já foi comercializada, estando no estoque das empresas ou exportada, o equivalente a quase 10 milhões de toneladas”, destaca. O restante, que ainda está com os produtores, será disputado por indústrias e trades.

Ele estima que Goiás produzirá 12,5 milhões de toneladas de soja este ano, mas esmaga em torno de 700 mil toneladas mensais. “No Rio Grande do Sul, onde houve quebra de 50% na safra, a falta já vai acontecer na entrada do segundo semestre. A nossa sorte em Goiás é que a produção foi boa”, ressalta o empresário. Mas ele lembra que, se tiver que buscar soja em outros estados no segundo semestre, como no Mato Grosso, terá que usar seus créditos de ICMS e Goiás perderá arrecadação em dobro. Outra consequência disso será um aumento dos custos, que pode se refletir nos preços dos produtos ao consumidor.

 

Fonte: O Popular

 

 

 

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