ADIAL participa do Encontro DH&E Brasil 2026 promovido pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil
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A Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás (ADIAL) participa, como convidada, do I Encontro Brasileiro de Direitos Humanos e Empresas, realizado nesta terça-feira, 4 de agosto, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Com o tema “Pluralidade que Constrói”, o evento reúne lideranças empresariais, representantes do poder público, organismos internacionais, academia, sociedade civil, trabalhadores, povos indígenas, comunidades tradicionais e titulares de direitos em torno de uma discussão que ganha centralidade nas estratégias corporativas: a responsabilidade das empresas sobre as pessoas, os territórios e as cadeias produtivas com as quais se relacionam.
A iniciativa é realizada pela Aliança pelos Direitos Humanos e Empresas (ADHE), pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil, pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). A programação se estende das 8h30 às 19h30, com espaços de conteúdo, rodas de conversa, apresentações culturais e ambientes voltados à troca de experiências entre diferentes setores da sociedade. ([Pacto Global][1])

O encontro ocorre em um cenário marcado por mudanças climáticas, transformações tecnológicas, tensões geopolíticas, reconfiguração das cadeias globais de valor e ampliação das exigências regulatórias. Esse conjunto de fatores tem levado empresas, investidores, consumidores e governos a observar com maior atenção os impactos sociais, ambientais e trabalhistas relacionados às atividades econômicas.
Nesse contexto, a agenda de Direitos Humanos e Empresas deixa de ser compreendida apenas como uma obrigação jurídica ou reputacional. Ela passa a ocupar uma posição estratégica na gestão de riscos, na continuidade dos negócios, no acesso a mercados e investimentos e na construção de relações mais consistentes com trabalhadores, fornecedores, comunidades e consumidores.
“As empresas não operam em um vácuo”, afirma Mônica Gregori, diretora de Impacto e Comunicação do Pacto Global da ONU – Rede Brasil. Segundo ela, diante do crescimento dos riscos sistêmicos, enfrentar essas dinâmicas passou a integrar as estratégias de resiliência e competitividade de longo prazo das organizações.

Na prática, isso significa compreender que a responsabilidade de uma empresa não se encerra dentro de suas unidades produtivas. Ela também alcança fornecedores, prestadores de serviços, terceirizados, parceiros comerciais e os territórios afetados direta ou indiretamente por suas decisões. Condições dignas de trabalho, prevenção do trabalho infantil e do trabalho análogo à escravidão, segurança laboral, diversidade, inclusão, rastreabilidade, escuta das comunidades e mecanismos de denúncia e reparação passam a integrar a análise sobre a conduta empresarial responsável.
A gerente de Marketing, Comunicação, Eventos e Conhecimento do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, Ana Urzique, destacou que o encontro foi estruturado para reunir diferentes perspectivas sobre o avanço dessa agenda no país.
“Estamos hoje aqui na Cinemateca Brasileira, em um evento do Pacto Global e da Rede Brasileira de Direitos Humanos e Empresas. Vamos receber lideranças de direitos, sociedade civil, academia, poder público e também, é claro, nossas empresas participantes do Pacto Global, para falar sobre como podemos, coletivamente, avançar na agenda de Direitos Humanos e Empresas aqui no Brasil e também internacionalmente”, afirmou.
Empresas diante de um mundo em transformação
Um dos principais eixos da programação analisa a atuação das empresas em um mundo em profunda transformação. O debate parte da compreensão de que crises climáticas, conflitos, desigualdades sociais e mudanças tecnológicas não estão desconectados das decisões empresariais. Ao contrário, esses fenômenos podem alterar custos, comprometer cadeias de abastecimento, gerar riscos jurídicos, afetar a disponibilidade de mão de obra e influenciar o relacionamento das organizações com governos e comunidades.
Outro painel discute o que a agenda de Direitos Humanos e Empresas representa atualmente, para quais públicos ela faz sentido e como vem sendo implementada. A proposta é ultrapassar uma abordagem restrita ao discurso institucional e observar como compromissos internacionais podem ser transformados em políticas internas, responsabilidades de governança, indicadores, procedimentos de avaliação e decisões de investimento.
Também estão entre os temas do encontro os instrumentos disponíveis para responder aos desafios atuais. A discussão envolve políticas corporativas, códigos de conduta, avaliação de fornecedores, auditorias, canais de denúncia, processos de devida diligência, escuta de públicos afetados e mecanismos de reparação.
A devida diligência em direitos humanos consiste em um processo contínuo por meio do qual as empresas identificam, previnem, mitigam e prestam contas sobre os impactos negativos relacionados às suas operações. Não se trata apenas de elaborar documentos ou divulgar compromissos. O processo exige participação da alta liderança, definição de responsabilidades, monitoramento de riscos, transparência e capacidade de agir diante de violações ou fragilidades identificadas.
Mineração, transição energética e comunidades
A programação dedica espaço à mineração voltada à transição energética, especialmente à exploração de terras raras e minerais críticos. Esses recursos são essenciais para a fabricação de baterias, equipamentos eletrônicos, veículos elétricos e tecnologias utilizadas na geração de energia renovável. Entretanto, o crescimento da demanda também amplia os desafios relacionados às condições de trabalho, à proteção ambiental, ao relacionamento com comunidades e à ocupação dos territórios.
O debate chama atenção para uma questão fundamental: a transição para uma economia de baixo carbono também precisa ser socialmente justa. A substituição de fontes energéticas e o desenvolvimento de novas tecnologias não podem reproduzir violações, aprofundar desigualdades ou desconsiderar os direitos das populações afetadas pelos projetos.
Associado a esse tema, o encontro aborda a aplicação do Consentimento Livre, Prévio e Informado. O princípio assegura que povos indígenas e comunidades tradicionais sejam adequadamente informados e consultados sobre projetos, empreendimentos ou decisões que possam atingir seus territórios, seus modos de vida e seus patrimônios culturais.
A consulta não deve ser tratada como uma etapa meramente protocolar. Ela pressupõe acesso prévio às informações, linguagem adequada, respeito à organização social das comunidades e possibilidade real de participação nas decisões. O tema possui relação direta com projetos de mineração, infraestrutura, geração de energia, expansão industrial e produção agropecuária.
Agroindústria e cadeias de valor
Outro painel setorial discute a relação entre agroindústria, direitos humanos e cadeias de valor. O assunto possui especial importância para Goiás, onde a produção agropecuária está profundamente conectada à indústria de alimentos, biocombustíveis, mineração, logística, comércio exterior e geração de empregos.
A responsabilidade empresarial nas cadeias agroindustriais envolve diferentes dimensões. Entre elas estão as condições de contratação e trabalho, a saúde e segurança dos trabalhadores, a origem das matérias-primas, a regularidade dos fornecedores, o respeito às comunidades, a prevenção de conflitos territoriais e a rastreabilidade da produção.
Para as empresas, conhecer a cadeia de fornecimento tornou-se uma necessidade estratégica. Uma irregularidade praticada por um fornecedor pode gerar impactos jurídicos, financeiros e reputacionais para toda a cadeia. Em mercados mais exigentes, a ausência de mecanismos capazes de demonstrar a origem dos produtos e as condições em que foram produzidos pode comprometer contratos, investimentos e oportunidades comerciais.
A participação da ADIAL aproxima o setor produtivo goiano de uma agenda que influencia progressivamente o comércio nacional e internacional. Ao acompanhar os debates, a entidade contribui para que a realidade das empresas brasileiras e das cadeias produtivas regionais seja considerada na construção de políticas, compromissos e mecanismos relacionados aos direitos humanos.
Essa aproximação também permite compartilhar experiências desenvolvidas pelo setor industrial e compreender as mudanças que já começam a atingir empresas de diferentes portes. Grandes compradores, instituições financeiras e investidores têm ampliado as exigências relacionadas à avaliação de fornecedores, à transparência, às condições de trabalho e à gestão de riscos socioambientais.
Compromissos além do discurso
A programação também apresenta uma reflexão sobre as diferentes formas de “washing”, termo utilizado para caracterizar situações em que organizações divulgam compromissos ambientais, sociais ou relacionados à diversidade sem que existam práticas, metas e resultados suficientes para sustentá-los.
A discussão reforça a importância da coerência entre comunicação e gestão. Não basta anunciar adesão a princípios ou publicar campanhas institucionais. É necessário demonstrar de que forma os compromissos são incorporados às decisões, quem responde por sua implementação, quais indicadores são acompanhados e quais resultados foram alcançados.
Quando existe uma distância significativa entre o discurso e a prática, a comunicação deixa de fortalecer a reputação e passa a representar um risco. A cobrança por maior transparência vem de consumidores, trabalhadores, investidores, imprensa, órgãos reguladores e da própria sociedade civil.
Esse movimento também modifica o papel da comunicação corporativa. Além de divulgar ações, a comunicação precisa contribuir para a prestação de contas, apresentar resultados verificáveis e reconhecer desafios ainda não solucionados. A construção de confiança depende menos de declarações genéricas e mais da capacidade de demonstrar avanços, limitações e compromissos concretos.
Inteligência artificial, infância e juventudes
Os impactos da inteligência artificial sobre os direitos humanos integram outro eixo do encontro. A adoção crescente de sistemas automatizados em processos seletivos, concessão de crédito, atendimento ao consumidor, segurança e gestão de pessoas cria oportunidades de eficiência, mas também amplia preocupações relacionadas à privacidade, à proteção de dados, à discriminação e à transparência das decisões.
Sistemas tecnológicos podem reproduzir desigualdades existentes quando são desenvolvidos ou treinados com bases de dados enviesadas. Por isso, a utilização responsável da inteligência artificial exige supervisão humana, critérios de governança, avaliação de riscos e possibilidade de contestação das decisões automatizadas.
A programação também discute a responsabilidade das empresas em relação à primeira infância e às juventudes. A atuação empresarial pode afetar esse público por meio das relações de trabalho estabelecidas com pais e responsáveis, da publicidade, dos produtos oferecidos, da organização das jornadas, das políticas de licença e apoio familiar e dos impactos gerados nas comunidades.
Ao incluir infância e juventudes na agenda, o encontro amplia a compreensão sobre os públicos afetados pelas decisões empresariais. Políticas internas, estratégias de comunicação e investimentos sociais podem produzir consequências que ultrapassam o ambiente de trabalho e alcançam as condições de desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens.
Cinemateca reforça dimensão histórica do encontro
A escolha da Cinemateca Brasileira também possui um significado relacionado à proposta do evento. Responsável pela preservação de um dos mais importantes acervos audiovisuais da América Latina, a instituição guarda registros da memória, da identidade e da diversidade cultural brasileira.
“A Cinemateca representa um espaço onde a memória coletiva é preservada e compartilhada”, afirma Mônica Gregori. Para a diretora, realizar a discussão nesse ambiente reforça que desenvolvimento econômico, respeito às pessoas e valorização de suas histórias devem caminhar juntos.
A relação entre memória e direitos humanos também evidencia que os impactos empresariais não podem ser analisados somente a partir de resultados econômicos imediatos. Grandes projetos, cadeias produtivas e decisões corporativas deixam marcas nos territórios, nas relações de trabalho, nas comunidades e nas trajetórias das pessoas.
Ao incorporar os direitos humanos às estratégias empresariais, as organizações também assumem responsabilidade sobre o legado que pretendem construir. Esse legado envolve a capacidade de gerar empregos, renda, inovação e desenvolvimento sem desconsiderar a dignidade das pessoas e as características sociais, culturais e ambientais de cada território.
Contribuição brasileira ao debate internacional
As discussões realizadas durante o I Encontro Brasileiro de Direitos Humanos e Empresas deverão contribuir para a construção de um documento brasileiro a ser apresentado no Fórum das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos, em Genebra, na Suíça.
O encaminhamento amplia a importância do evento ao permitir que experiências, desafios e propostas debatidos no Brasil sejam levados ao principal espaço internacional dedicado ao tema. A contribuição deverá refletir diferentes visões sobre a implementação dos princípios de empresas e direitos humanos em um país caracterizado pela diversidade regional, produtiva, social e cultural.
Além dos painéis e das rodas de conversa, o encontro conta com atividades culturais e uma feira de empreendedorismo. A iniciativa possui apoio da Rede Mulher Empreendedora e do Fórum Empresas com Refugiados, além do patrocínio da Petrobras.
Ao reunir empresas, trabalhadores, comunidades, poder público, academia, sociedade civil e organismos internacionais, o evento busca construir respostas capazes de aproximar compromissos globais da realidade brasileira. A pluralidade proposta pelo encontro não está apenas na composição dos painéis, mas na compreensão de que soluções consistentes exigem a participação dos diferentes públicos afetados pelas atividades econômicas.
Para a ADIAL, estar presente nessa discussão significa acompanhar transformações que já influenciam a competitividade, a governança e o acesso das empresas aos mercados. Significa também contribuir para que o avanço da agenda considere a realidade produtiva, estimule práticas responsáveis e reconheça que o desenvolvimento econômico sustentável depende da capacidade de gerar riqueza, emprego e oportunidades com respeito às pessoas, às comunidades e aos territórios.































