Frete 16% mais caro pressiona indústria e amplia alerta sobre competitividade
Levantamento indica que a política de pisos mínimos elevou em média 16,4% os custos do frete rodoviário para empresas industriais; entidade alerta para impacto direto sobre produção, investimentos e preços ao consumidor

O custo do transporte voltou ao centro das preocupações da indústria brasileira. Em um país onde boa parte da produção depende das rodovias para chegar aos centros de distribuição, ao varejo e ao consumidor final, qualquer aumento no preço do frete deixa de ser apenas uma questão logística e passa a interferir diretamente na competitividade das empresas.
A avaliação é acompanhada com atenção pela Adial - Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás, associação civil sem fins lucrativos que congrega indústrias, operadoras logísticas, empresas de tecnologia e serviços. A entidade reúne cerca de 150 marcas que integram cadeias estratégicas da economia goiana e representam parcela relevante da força produtiva do Estado.
Levantamento realizado pela Confederação Nacional da Indústria mostra que 94% das empresas industriais que contratam transporte rodoviário de cargas identificam efeitos negativos da Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas, a PNPM-TRC, sobre seus custos de frete. A pesquisa aponta ainda que a política elevou, em média, 16,4% os custos do frete rodoviário em comparação a um cenário de livre negociação.
O resultado reforça uma preocupação já percebida no cotidiano das empresas. O frete deixou de ser apenas uma variável operacional e se consolidou como um dos componentes centrais do chamado Custo Brasil, com impacto sobre margens, investimentos, produtividade e preço final dos produtos.
“Quando o frete aumenta, o impacto não fica restrito à planilha da empresa. Ele chega ao preço final, reduz margem, dificulta investimentos e tira competitividade de quem produz. Para um estado como Goiás, que tem uma indústria forte e depende de corredores logísticos eficientes, esse debate precisa ser tratado com responsabilidade e visão de desenvolvimento”, afirma Edwal Portilho, o Tchequinho, presidente da Adial.
Segundo a sondagem, 86% das empresas que utilizam o transporte rodoviário para escoar suas mercadorias contratam serviços de frete, seja de forma exclusiva ou combinada com frota própria. O dado evidencia a abrangência dos efeitos da política sobre o setor produtivo e mostra que as novas exigências regulatórias não atingem apenas transportadoras, mas toda a cadeia industrial.
A pesquisa também mostra que 64% das empresas classificam os impactos da política de pisos mínimos sobre os custos de transporte como altos ou muito altos. Entre pequenas e médias empresas, a percepção é ainda mais intensa: cerca de sete em cada dez avaliam que os efeitos do tabelamento têm elevada magnitude.
Metodologia é vista como distante da realidade operacional
Outro ponto sensível apontado pela indústria é a metodologia utilizada para definição dos pisos mínimos. Oito em cada dez empresas consideram que as regras de cálculo adotadas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres, a ANTT, estão parcial ou totalmente desalinhadas da realidade operacional do transporte rodoviário de cargas.
Pequenas e médias empresas sentem mais o peso do frete
Os impactos da política de pisos mínimos são mais severos para empresas de menor porte. Segundo a sondagem, pequenas empresas estimam aumento médio de 19% nos custos de transporte em razão do tabelamento, enquanto as médias apontam elevação de 18%. Entre as grandes empresas, o percentual é de 14%.
Na prática, esse aumento pressiona margens, reduz a capacidade de negociação e dificulta o planejamento de empresas que já enfrentam maiores desafios para diluir custos logísticos em escala. Para muitos negócios industriais, o frete não é uma despesa acessória. Ele participa da formação do custo final, interfere na precificação e pode determinar a viabilidade de uma operação em determinadas regiões.
Para Eduardo Alves, diretor da Adial Log, braço logístico da entidade, o tema exige atenção porque afeta tanto grandes cadeias industriais quanto empresas fornecedoras, prestadoras de serviço e operações integradas ao setor produtivo. “A indústria precisa de previsibilidade para contratar, produzir e entregar. Quando há insegurança regulatória ou aumento artificial de custos, toda a cadeia sente: embarcadores, transportadores, fornecedores, distribuidores e consumidores. A preocupação não é com a fiscalização em si, mas com regras que ampliam penalidades sem resolver antes as distorções da metodologia”, afirma Eduardo.
Embora Goiás não esteja entre as regiões com maior percentual médio indicado pela pesquisa, a discussão tem impacto direto sobre o Estado. Com forte presença industrial, logística e agroindustrial, além de posição estratégica no escoamento da produção nacional, Goiás depende de segurança jurídica e eficiência logística para manter sua capacidade de atrair investimentos, gerar empregos e integrar cadeias produtivas.
Setores de menor valor agregado são mais afetados
A sondagem mostra que os efeitos do tabelamento são mais expressivos em setores cuja logística representa parcela relevante dos custos de produção. Os maiores impactos foram observados nos segmentos de extração mineral e de produtos minerais não metálicos, que incluem fertilizantes, sal, gesso e cerâmica, com aumento médio próximo de 23% nos custos de transporte.
Também apresentaram elevação acima da média nacional setores como produtos alimentícios e máquinas e equipamentos. O resultado evidencia que a política afeta de forma desigual as diferentes cadeias produtivas e tende a pesar mais justamente nos setores em que o frete tem participação maior na composição do custo final.
Para a indústria, esse cenário cria um efeito em cadeia. O aumento do frete pressiona o custo de insumos, encarece a distribuição, reduz competitividade em mercados mais distantes e pode comprometer a capacidade de empresas brasileiras concorrerem em igualdade de condições, tanto no mercado interno quanto em operações voltadas à exportação.
MP 1.343/2026 amplia preocupação com custos e segurança jurídica
Além dos impactos já percebidos com a política de pisos mínimos, os empresários demonstram preocupação com os efeitos da Medida Provisória nº 1.343/2026. A norma amplia os mecanismos de fiscalização do piso mínimo de frete, introduz novas obrigações regulatórias e endurece as sanções aplicáveis em caso de descumprimento das regras.
Entre as empresas industriais que têm conhecimento da medida provisória, a principal preocupação é com a elevação dos custos de transporte, apontada por 85% dos respondentes. Em seguida aparecem a perda de competitividade, citada por 57%, e a insegurança jurídica, mencionada por 35%. Também foram apontados riscos de comprometimento das operações, com atrasos ou interrupções, por 25%, além da desproporcionalidade das sanções previstas na norma, lembrada por 17%.
Para Paula Bogossian (CNI), a MP representa um endurecimento inadequado da política de pisos mínimos ao reforçar um modelo de tabelamento que já produz impactos negativos para a competitividade da economia brasileira. “É inadequado ampliar o rigor do modelo sancionador sem que haja, previamente, uma revisão da metodologia que serve de base para a própria política de pisos mínimos. Quando as sanções passam a se apoiar em parâmetros considerados pouco aderentes à realidade das operações, aumenta-se o risco de insegurança jurídica, distorções econômicas e prejuízos para toda a cadeia produtiva”, destaca.
Recentemente, foi instalada a comissão mista para análise da medida provisória apresentada pelo governo federal. A expectativa é que o relatório seja protocolado pelo deputado Zé Trovão, relator da matéria na comissão que analisa a proposta no Congresso Nacional. O parlamentar divulgou potenciais modificações ao texto original, mas ainda não há parecer oficial.
Entre as inovações em análise está a criação de um piso salarial de R$ 5 mil mensais para o motorista profissional que atuar em operações de longa distância, consideradas aquelas em que o caminhoneiro permanece por período superior a 24 horas fora de sua base.
A mudança pode afetar não apenas empresas que atuam com frota própria, incluindo indústrias e transportadoras, mas também aquelas que terceirizam esse serviço, uma vez que o setor tende a recompor esse custo por meio de reajustes no valor do frete. Na prática, o efeito pode ser uma nova pressão sobre o transporte rodoviário de cargas industriais, com reflexos sobre os custos de produção e sobre o consumidor final.
Desde 2018, o frete mínimo obrigatório é objeto da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 5.964, de autoria da CNI, que questiona a constitucionalidade da Lei nº 13.703/2018, responsável por instituir a política de pisos mínimos do frete. A discussão também alcança a MP 1.343/2026, diante da avaliação de que o endurecimento das regras, sem revisão prévia da metodologia de cálculo dos pisos, pode ampliar distorções e elevar ainda mais os custos logísticos da indústria brasileira.
Para a Adial, o debate exige equilíbrio entre segurança jurídica, eficiência econômica e valorização dos profissionais do transporte, sem que isso resulte em perda de competitividade para quem produz. Em um ambiente de custos elevados, infraestrutura desafiadora e alta dependência do modal rodoviário, políticas públicas voltadas à logística precisam considerar os efeitos sobre toda a cadeia produtiva, da indústria ao consumidor.
A entidade defende que o Brasil precisa avançar em soluções que reduzam o Custo Brasil, ampliem a eficiência logística e preservem a capacidade da indústria de investir, gerar empregos e entregar produtos competitivos. Para Goiás, estado com vocação produtiva, posição estratégica e forte presença de indústrias, operadoras logísticas, empresas de tecnologia e serviços, o tema é decisivo para o desenvolvimento econômico.
Redação Adial





Comentários